Tivemos a oportunidade de conversar com Cristina Cano, diretora de operações e uma profissional inspiradora no setor dos transportes. Nesta entrevista, exploramos a sua trajetória, a sua visão estratégica e a sua perspetiva sobre os desafios e oportunidades da indústria.
Convidamo-lo a descobrir as suas reflexões e tudo o que ela nos trouxe nesta conversa.
Trajetória e visão pessoal
Cristina, a sua trajetória combina experiência internacional, marketing e liderança em operações. Como é que estas etapas influenciaram a forma como dirige hoje uma empresa de transportes?
Acredito que todas as etapas da nossa vida profissional nos ajudam a construir quem somos. Ter trabalhado fora de Espanha ajudou-me a compreender a importância da adaptação, da visão global e da capacidade de antecipar mudanças.
Por outro lado, a minha formação e experiência ensinaram-me algo fundamental: por detrás de qualquer operação existem sempre pessoas — clientes, equipas, colaboradores — e compreender as suas necessidades é essencial.
Hoje aplico essa visão. Não se trata apenas de transportar mercadorias, mas de gerar confiança, construir relações e oferecer soluções eficientes ao mesmo tempo.
Depois de vários anos fora de Espanha, que aprendizagens fundamentais trouxe consigo ao integrar o negócio familiar?
Em primeiro lugar, a formação e experiência em vendas ajudaram-me a desenvolver uma mentalidade muito orientada para o cliente: ouvir as suas necessidades e compreender que a confiança se constrói através da criação de relações fortes e sólidas e da oferta de soluções.
Em segundo lugar, a gestão de equipas num ambiente tão competitivo e multicultural como o de Londres ensinou-me a liderar com clareza e objetivos mensuráveis. Aprendi a organizar, motivar e coordenar pessoas com perfis muito diferentes, algo que mais tarde foi fundamental quando me integrei no negócio familiar.
Além disso, o domínio da língua e a convivência diária num ambiente internacional proporcionaram-me uma visão mais aberta e flexível. Habituei-me a trabalhar com padrões elevados, a medir resultados de forma constante e a ser mais ágil na resolução de problemas.
O meu objetivo ao integrar a empresa foi combinar essa essência familiar com uma visão mais moderna e estratégica, através da implementação de novos softwares, orientada para o futuro, centrada nas pessoas e com presença nas redes sociais.
Como viveu a sucessão geracional na Transportes J. Cano e que desafios implicou liderá-la?
Com um grande sentido de responsabilidade e também com muito respeito pelo trabalho realizado pelo meu pai, que construiu uma empresa baseada no esforço, na perseverança e na confiança.
Respeitando esses valores, continuaremos a construir a JCano.
O principal desafio é evoluir sem perder a essência. Inovar, digitalizar e crescer, mas mantendo sempre a proximidade, o compromisso e a cultura de trabalho que nos definem.
Mulher e setor dos transportes
O setor dos transportes foi historicamente um ambiente masculinizado. Na sua experiência, que barreiras continuam presentes atualmente?
Embora o setor tenha evoluído muito, ainda existem algumas barreiras.
Por vezes, as mulheres têm de demonstrar mais para que as suas capacidades sejam valorizadas da mesma forma. Também continua a haver trabalho a fazer ao nível da conciliação entre vida profissional e pessoal, da visibilidade, do acesso real a diferentes níveis de responsabilidade e da igualdade salarial.
Mas acredito que a mudança já está a acontecer e que cada vez mais mulheres estão a trazer um enorme valor ao setor.
Tem sentido uma mudança real na presença e no reconhecimento das mulheres no setor nos últimos anos? Em que se nota essa mudança?
Sim, sem dúvida. Hoje vemos mais mulheres a liderar equipas, a participar em fóruns do setor, a tomar decisões estratégicas ou até mesmo a conduzir camiões.
E o mais importante: começa a ser visto com naturalidade.
Que papel considera que a liderança feminina desempenha na evolução cultural das empresas de logística?
Acredito que traz talento, organização, empatia e uma visão diferente da liderança.
Mas, mais do que falar de homens ou mulheres, penso que o futuro da liderança passa por modelos mais humanos, colaborativos e próximos.
As empresas precisam de líderes capazes de ouvir, criar ligação e gerar confiança.
Nas suas intervenções públicas tem falado da importância da empatia e do bom senso na gestão. Como acredita que estas competências estão a ajudar a redefinir a liderança no setor?
Durante muito tempo, a liderança esteve associada apenas a resultados e autoridade. Hoje compreendemos que liderar também implica compreender as pessoas.
A empatia não significa perder exigência; significa saber gerir equipas de forma mais inteligente e humana, entendendo que somos pessoas, não máquinas, com sentimentos e emoções, e que vivemos diferentes situações pessoais e profissionais.
Num setor tão exigente como o dos transportes, onde trabalhamos sob pressão constante, penso que estas competências fazem uma grande diferença.
Medidas e impacto
Na sua posição de Diretora de Operações, que iniciativas concretas implementaram para promover a visibilidade e o desenvolvimento das mulheres na empresa?
Trabalhamos muito a igualdade de oportunidades e a criação de um ambiente onde qualquer pessoa possa crescer através do seu talento e capacidade. Há já algum tempo que desenvolvemos planos e iniciativas que promovem a igualdade de género.
Também procuramos dar visibilidade a referências femininas dentro do setor, porque acreditamos que é importante que outras mulheres se possam rever nelas e pensar: “eu também consigo”, no Dia Internacional da Mulher, para citar um exemplo.
Existe alguma ação ou projeto nesta área de que se sinta particularmente orgulhosa? Porquê?
Um dos aspetos que mais satisfação me deu nos últimos anos foi poder contribuir para dar maior visibilidade ao papel da mulher, à inovação e à sustentabilidade dentro do setor dos transportes.
Sinto-me especialmente orgulhosa por ter recebido recentemente o Prémio MIA, porque representou um reconhecimento não só da minha trajetória profissional, mas também de uma forma de entender a liderança baseada na transformação, na proximidade e na capacidade de gerar impacto no setor.
Destacaria também a minha participação na campanha “More Than a Tire”, da Michelin.
Além disso, tive a oportunidade de participar em diferentes fóruns e encontros relacionados com os transportes, a logística e a sustentabilidade.
Para mim, representar o setor nestes espaços é também uma responsabilidade e uma forma de contribuir ativamente para a sua transformação.
Sinto-me especialmente orgulhosa ao ver que cada vez mais mulheres se sentem motivadas a crescer profissionalmente dentro da empresa e a assumir novos desafios. Contribuir para criar um ambiente onde se sintam valorizadas é, sem dúvida, uma das maiores conquistas.
Como trabalham internamente a atração de talento feminino num setor que nem sempre é uma primeira opção profissional?
Acredito que a chave está na visibilidade e em mostrar a realidade atual do setor. Os transportes mudaram muito: existe mais tecnologia, maior profissionalização, mais oportunidades de desenvolvimento do que muitas pessoas imaginam e um vasto campo para trabalhar e melhorar.
Também é importante criar ambientes onde as pessoas se sintam valorizadas e onde possam projetar um futuro profissional.
Inovação, sustentabilidade e futuro
Tem sido uma das vozes mais visíveis em iniciativas de sustentabilidade e chegaram mesmo a receber a Terceira Estrela Lean & Green. Como se relacionam estes avanços com uma visão mais inclusiva do setor?
A sustentabilidade não é apenas ambiental; é também social e humana. Quando uma empresa aposta na inovação, na eficiência e na melhoria contínua, está igualmente a construir ambientes mais preparados para atrair talento diverso e novas formas de liderança.
A nossa forma de encarar a sustentabilidade está muito ligada à segurança.
Acredito que os setores que evoluem são também aqueles que se tornam mais abertos e inclusivos.
A transformação dos transportes passa pela digitalização, pela eficiência e pela descarbonização. Como é que estas mudanças impactam o papel da mulher no setor?
A transformação tecnológica está a derrubar muitas barreiras tradicionais.
Hoje, o setor necessita de perfis estratégicos, analíticos, digitais e de gestão, nos quais o talento e a capacidade têm muito mais peso do que os antigos estereótipos associados aos transportes, numa altura em que a inteligência artificial surge para melhorar processos.
Isso abre inúmeras oportunidades para as mulheres.
Na sua perspetiva, que tipo de liderança irão necessitar as empresas de logística nos próximos anos?
Uma liderança adaptável, próxima, empática e com visão global.
As empresas precisarão de pessoas capazes de gerir a mudança, compreender a tecnologia, tomar decisões rápidas e, ao mesmo tempo, cuidar das equipas.
Acredito que o futuro pertence aos líderes que saibam combinar resultados com humanidade.
Inspiração e mensagem final
Que conselho daria às empresas que ainda não incorporaram a diversidade como um eixo estratégico?
Diria que compreendam que não se trata apenas de imagem ou responsabilidade social, mas de crescimento e competitividade.
Equipas diversas trazem diferentes perspetivas, enriquecem a tomada de decisões e ajudam as empresas a evoluir.
O que significa para si ser uma mulher de referência no setor e que responsabilidade isso implica ao nível da visibilidade?
Vivo isso com enorme gratidão, mas também com responsabilidade.
Se a minha experiência ou visibilidade puder ajudar outra mulher a dar um passo em frente, assumir um desafio ou confiar mais em si própria, então tudo faz sentido.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar sobre o futuro da mulher nos transportes?
O futuro dos transportes precisa de talento, visão e compromisso, e isso não depende do género. Cada vez haverá mais mulheres a fazer parte do setor, a liderar projetos e a gerar valor. E isso é uma excelente notícia para todos. A mudança já começou e acredito sinceramente que o melhor ainda está para vir